Caraterização:
A Festa em honra do Espírito Santo envolve toda a população da freguesia, bem como alguns ausentes que mantêm viva a chama da devoção à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
Preparação da Festa do Espírito Santo
A Irmandade possui o seu Império próprio com traça arquitetónica tradicional onde são depositadas as Insígnias: Coroa, Cetro, Estandarte, Varas, fitas, emblemas. Faz parte do seu património uma casa de arrumos com mesas, bancos, louças, talheres, aventais e gravatas. Possui ainda uma cozinha ampla e bem apetrechada que permite a cozedura da carne, a confeção da carne assada e do arroz-doce, conhecido popularmente por doce dos pobres.
Estes bens são cedidos a todos os que, durante o ano, cumprem as suas promessas ou, generosamente, gostam de partilhar o bem-estar em que vivem.
A primeira preocupação do Mordomo e da sua equipa consiste em “arrolar o pão”: percorrer a freguesia e perguntar em todas as casas se dão ou não pão (rosquilhas) ou se cumprem a sua obrigação de irmão com dinheiro. Contas feitas, todos procuram ficar tranquilos sem o embaraço que aconteceria se alguém passasse e não levasse uma rosquilha, lembrança, relíquia ou “arrelique”, na voz simples do povo.
No domingo anterior à Festa do Espírito Santo (Dia de Pentecostes), as Insígnias do Espírito Santo saem do Império para a casa do Mordomo.
Durante a semana, na casa do Mordomo ou Imperador/Imperatriz, vizinhos e amigos juntam-se para cantar o terço em louvor do Espírito Santo, bem como as preces tradicionais. A Coroa com o Cetro fica depositada em altar próprio, ornamentado com flores vermelhas e brancas. O Estandarte vermelho, encimado com a pomba branca é, normalmente, posto em saliência numa das janelas da casa para assinalar que aquela é a casa do Mordomo ou Imperador. Também o portão é enfeitado com um arco de verdura para solenizar a entrada das Insígnias.
No fim do terço o Cetro é beijado por todos os presentes e há sempre um brinde com a massa “sovada” e vinho típico da freguesia.
De realçar que um foguete assinala o início do Terço e foguetes, em profusão, assinalam os momentos mais solenes da Festa sobretudo, o início da distribuição do pão.
Pedido de instalações
A freguesia possui vários salões de instituições mas o maior em que se celebra a “Função” pertence à Casa do Povo de São Mateus e pode albergar cerca de 600 pessoas. É sempre cedido para todas as Funções do Espírito Santo.
O salão de festas, no interior e nos exteriores, é engalanado a preceito, utilizando-se a simbologia própria da festa. O Mordomo, familiares e colaboradores servem-se do valioso espólio da Irmandade colocando bancos e mesas, toalhas apropriadas e preparam lugar especial no palco para receber a Coroa, o Estandarte e outras Insígnias.
A função
Na sexta-feira, os bovinos são abatidos, por vezes oferecidos por irmãos lavradores mais abastados.
No sábado a carne é partida, dividida e salgada. Na grande cozinha tudo está preparado para a feitura das célebres sopas em honra do Espírito Santo. O dia de sábado também está reservado para a confeção do arroz-doce e da carne assada.
Na madrugada de domingo, por volta das três da manhã, a equipa de cozinheiros (há volta de 10 colaboradores experimentados) preparam os temperos (pimenta da Jamaica, alho, cebola, malagueta, tomatada, cominhos, sal, caldo de carne, canela, colorau) e a carne começa a ser cozida em grandes tachos ou caldeirões. A Irmandade de São Mateus possui, na referida cozinha, 20 bicos de fogão, todos a funcionar para o grande almoço. Ao mesmo tempo, em celhas de madeira, coloca-se o pão, especialmente encomendado, mais longo e achatado, cortado de véspera. Por cima das fatias de pão, espalham-se ramos de hortelã, colorau e canela para o sabor que é tradicional. Depois de cinco horas a cozer, a carne, com couves, é tirada também para celhas e o caldo, provado de vez em quando, é espalhado sobre as fatias de pão para que fiquem bem molhadas.
Este é o prato secular da Festa nesta localidade. Acrescenta-se a carne assada saborosa, normalmente acompanhada da massa sovada, e o arroz-doce. Tudo está preparado e abafado com antecedência para permitir que alguns dos mestres das sopas participem nas cerimónias que se seguem. Com sempre é o vinho de cheiro, vinho tradicional da freguesia, que acompanha o grande banquete.
Os irmãos, familiares, amigos e população em geral acompanham as Insígnias do Espírito Santo da casa do Mordomo até à Igreja para a celebração festiva. Está sempre presente a Filarmónica Lira de São Mateus.
No cortejo fazem-se quadras com as Varas. Na da frente vai o Estandarte, bandeira e símbolo de identidade. Noutra quadra vai a Coroa. Normalmente o Mordomo é acompanhado da esposa ou vice-versa. À frente das quadras, meninos e meninas trajados de branco atiram flores de cestas próprias que a Irmandade possui. É o Mordomo que convida quem leva as Insígnias no cortejo.
Na igreja paroquial há missa festiva e homilia apropriada bem como cânticos tradicionais ao Espírito Santo. O Mordomo é coroado com a invocação conhecida: “Vinde Espírito Paráclito, nossas almas alentai!”. Por vezes há lágrimas de emoção, sobretudo quando se trata de cumprimento de promessas. À incensação com o turíbulo, segue-se a bênção do sacerdote. A cerimónia termina com o hino em louvor do Espírito Santo “Alva pomba que meiga aparecestes”. Seguidamente todos se incorporam no cortejo até ao salão onde são oferecidas a todos as sopas. O cortejo é acompanhado pela Filarmónica Lira de São Mateus que, na chegada ao salão, executa o hino do Espírito Santo.
Para além dos irmãos e familiares, participam convidados do mordomo: autoridades locais, emigrantes da Améria e Canadá que vêm à festa e residentes noutras ilhas. Num pequeno parêntesis refiro que, no passado, os pobres tinham a primazia. Recebiam esmolas e doze saboreavam as sopas ao lado do Mordomo. Neste momento, felizmente, não há casos de pobreza na comunidade.
As viúvas, viúvos e pessoas com dificuldade de locomoção não são esquecidos, procurando a Irmandade fazer chegar as refeições às suas casas.
Na Festa reina um grande espírito de solidariedade e amizade e o prazer do encontro de pessoas que não se viam há muito tempo.
Pelas quatro horas da tarde, o cortejo dirige-se ao local do arraial, levando as mulheres os açafates de rosquilhas à cabeça. Ainda no cortejo introduz-se a imagem da Rainha Santa Isabel, intimamente ligada à solidariedade que carateriza as Festas do Espírito Santo.
As rosquilhas são benzidas sempre com a Filarmónica a tocar o hino do Espírito Santo. Os açafates ficam alinhados e deles a equipa da distribuição do pão retira as rosquilhas necessárias para brindar todas as pessoas que passam pela Festa.
A Festa do Espírito Santo ainda é propícia à estreia do fato novo, do vestido mais garrido e do sapato mais requintado e, até, permite o encontro de olhares que, mais tarde, o amor há-de consagrar.
Como a Função é muito abundante as sopas que sobram são distribuídas pelos que ajudaram, pelo Lar de Idosos e Centro de Acolhimento de Crianças. O mesmo acontece em relação às rosquilhas e à massa sovada.
No fim do dia, com os últimos acordes da Filarmónica, e depois de tanta azáfama, o Mordomo e a sua equipa têm a alegria estampada no rosto “Correu tudo muito bem … o Senhor Espírito Santo nunca falta!”.
Historial:
Ao analisar, sob o ponto de vista histórico, o culto ao Espírito Santo na freguesia de São Mateus do Pico, não podemos deixar de atender à ilha do Pico, a ilha dos “mistérios”, geologicamente a mais jovem dos Açores, que soube fazer brotar de pedras negras o vinho que lhe deu pão.
Sendo embora a segunda maior ilha do arquipélago, o seu interior dominado pela grande montanha, alongada por dorsos de serranias, obrigou à fixação dos povoadores em pequenas comunidades isoladas, ao longo de um litoral pedregoso, com esporádicas comunicações marítimas. Antes que a hierarquia religiosa encontrasse sustentabilidade nesses lugares, antes que se erguessem capelas ou igrejas, antes que se mandassem esculpir imagens de santos para o culto público, ter-se-á desenvolvido o sentido de comunidade, o sentido de pertença a um grupo sedeado num espaço concreto de onde se extraía o sustento, onde se organizava a família, onde se partilhavam vivências, onde se uniam preces. Não custa a admitir que a instabilidade da terra que os povoadores haviam encontrado, sujeita a crises sísmicas, à inclemência das intempéries ou à ausência de chuva em terras de sequeiro, levasse a súplicas de proteção ao Divino não corporizado, ao Divino Espírito Santo, súplicas diretas do coração do crente, sem espaços específicos para o culto, sem intermediários privilegiados, à margem da hierarquia religiosa.
Nos momentos de maior aflição, quando as lavas derretiam a terra, foi ao Divino Espírito Santo que se dirigiram os clamores populares, com solenes promessas que comprometiam as gerações futuras. Segundo a tradição, no dia 21 de Fevereiro de 1718, quando os terramotos se sucediam, e as lavas, que haviam coberto S. João, freguesia vizinha, ameaçavam derramar-se sobre São Mateus, o povo desta levantou-se em procissão até aos limites da freguesia, levando a imagem do seu padroeiro e as insígnias do Espírito Santo, prometendo, a troco da clemência divina, dar pão, para sempre, a todos quantos acorressem no dia 21 de Setembro, o dia de São Mateus. Como por milagre, o fogo ter-se-á desviado para o mar e as gerações que se sucederam submeteram-se à promessa, cumprida escrupulosamente até aos dias de hoje.
Em momentos diferentes, cada comunidade da ilha, no caso concreto de São Mateus, sentiu necessidade de se unir em Irmandade, adquirir as Insígnias do Espírito Santo, uma Coroa de prata encimada pelo globo sobre o qual pousa a pomba de asas abertas e um Cetro, também de prata, com uma pomba em miniatura na extremidade, além do Estandarte. Construir depois uma Capela onde as Insígnias seriam depositadas, e erguer um Império entre o sábado e a terça-feira de Pentecostes, ou no domingo seguinte, o Domingo da Trindade. Nesse dia escolhido, sentam-se à mesa os irmãos em almoço especial, oferece-se uma “relíquia”, rosquilha, conforme é tradição, a todos quantos comparecem no Império, dando-se, nesse dia ou no dia seguinte, uma esmola de pão e carne aos pobres.
Ao longo do tempo, a hierarquia religiosa nem sempre viu com bons olhos esse culto popular em que apenas se pedia ao sacerdote que “dissesse a missa” e benzesse as rosquilhas, o pão ou as vésperas, o pão e a carne dos pobres. Sem intermediários, a festa era da Irmandade, a partilha estendia-se a todos, homens, mulheres, crianças, naturais e estranhos, sem dependência de raça ou de estatuto social.
A freguesia de São Mateus organizou-se em defesa das suas tradições. A Irmandade, cuja formação se perde no tempo, visto que existia antes da crise sísmica de 1718, já que as Insígnias acompanharam o povo até onde a lava escorria. Infelizmente, não temos referências escritas em relação à Irmandade, cuja formação desconhecemos, mas a presença na crise de 1718, demonstra que ela estava bem viva e unia todo o povo nas preces ao Divino.
Mesmo em épocas de grande carência nunca se deixou de levantar o Império, a Festa mais desejada de todo o ano. “Dar pão” era a assinatura de irmão. Assumido o encargo, para fazer as rosquilhas, numa economia de auto consumo, com ausência de frigoríficos, os ovos das poucas galinhas do curral eram logo subtraídos ao apetite da mesa e eram guardados na loja, entre o milho, para poderem conservar-se ao longo das sete semanas seguintes. Era preciso depois comprar a farinha e o açúcar com dinheiro amealhado ao longo de todo o ano à custa de um trabalho duro “para fora” ou da venda de algum excedente de vinho, de milho ou de inhames, ou ainda com o auxílio de familiares emigrados.
Nas vésperas da Festa acendiam-se os fornos, fornos grandes, preparados para secar milho e cozer o bolo tradicional. A mulher mais experimentada dirigia as operações, mas geralmente eram os homens quem amassava os grandes alguidares de massa, misturando a farinha com os ovos e a água, o açúcar, alguma manteiga, um pouco de raspa de limão e noz-moscada, conforme o gosto da pessoa, e fermento. Para três dúzias de rosquilhas, uma receita corrente, nos dias de hoje, envolve 20 quilos de farinha de trigo, 10 dúzias de ovos, 2 quilos de manteiga, 2 quilos de açúcar, raspa de limão e de noz-moscada, podendo variar a receita na quantidade de ovos, no açúcar e nos condimentos.
Depois de lêveda, “talhar” a massa para fazer as rosquilhas, sensivelmente do mesmo peso, exige prática e é trabalho de mulher. Estendidas na mesa sobre farinha de milho, para evitar aderências, as rosquilhas eram cobertas com um lençol, reforçado ou não por um cobertor, esperando o tempo adequado para que o fermento continuasse a atuar. Uma vez considerados, a massa e o forno, “no ponto”, os anéis de massa eram colocados na pá, um a um, sobre farinha de milho ou folhas de roca (hoje papel vegetal) e sobre eles faziam-se cortes de tesoura, para a rosquilha abrir no forno como uma coroa. “Temperar” o forno para que a massa crescesse, ficasse bem cozida e dourada, exigia uma atenção permanente. Como se processam várias “chamadas”, o forno podia pedir mais lenha, entre cozeduras, para manter a temperatura adequada. Retiradas do forno, com um pouco de manteiga, era “feita a cara” às rosquilhas ainda quentes, ficando mais brilhantes e vistosas.
Ainda na véspera da Festa, feitas as rosquilhas, em açafate de vimes, coberto a maior parte das vezes com uma toalha branca rendada, as mesmas eram arrumadas artisticamente, formando as exteriores círculos em três andares acima do nível do açafate. Os andares prendiam-se entre si e as rosquilhas exteriores eram atadas com uma fita branca de nastro (preta se a casa estivesse de luto), enfeitando-se depois com flores naturais, geralmente cravos, espetados no pão. A filha mais velha da casa ou a jovem casada preparar-se-iam depois para levar à cabeça o açafate na procissão de recolha. Hoje a recolha do pão é feita em carrinhas, mas o cortejo de recolha, o mais vistoso da Festa, continua a verificar-se, encontrando simbolicamente alguns açafates com o número de rosquilhas compatível com o transporte à cabeça de mulheres que na sua vida quotidiana não precisaram nunca de carregar feixes de lenha ou potes de água. Considere-se, no entanto, que o peso de cada rosquilha foi aumentando com a capacidade de aquisição de ingredientes por parte dos irmãos. Um interessante hábito que se vai introduzindo é o transporte à cabeça, por crianças em idade escolar, em pequenos açafates, de duas ou três rosquilhas.
Bem cedo, no dia da Festa, a grande azáfama era das mulheres, na preparação do almoço. O almoço da Festa, antes era só para os irmãos. A Função realizava-se na casa do Mordomo e, aos pequenos quartos, juntavam-se ramadas de faia para albergar os irmãos. Os pobres mereciam lugar de realce mas tudo isto em pequeno número.
Com o aparecimento dos grandes salões muita coisa se alterou. É a partilha, a solidariedade e a confraternização que marcam as Festas em louvor do Espírito Santo. Este facto comprova a pujança da Festa nesta comunidade.
A melhoria de condições de vida levou à extinção do hábito de distribuir, antes do almoço, sopas e pão aos mais pobres que esperavam de tigelas na mão. Hoje todos entram. O hábito do Mordomo almoçar ladeado de 12 pobres também entrou em desuso. Em contrapartida, aumentou significativamente o número dos que partilham o almoço de sopas em louvor do Espírito Santo e, quase todos os salões em volta da ilha, estão apetrechados para servir sopas a centenas de pessoas.
O jornal semanário Ilha Maior, na sua edição de 16 de Maio de 2013, fez um levantamento do número de almoços a servir nos respetivos Impérios da ilha. É impressionante o número atingido: 20.000 almoços em louvor do Espírito Santo numa ilha de 14.000 habitantes.