Governo dos Açores - Secretaria Regional da Educação, Ciência e Cultura - Direção Regional da Cultura

Garcia, José Martins

 [N. Criação Velha, Pico, 17.2.1941 ? m. Lagoa, S. Miguel, 3.11.2002] Escritor e professor universitário (Universidade de Lisboa e principalmente Universidade dos Açores, onde chegou a ser Vice-Reitor). Tanto a sua carreira de professor e de crítico literário, como a de escritor, o tornam digno de referência na sua geração. Bom aluno desde a escola primária, já nessa fase dizia querer ser escritor e mostrava propensão para as Letras. Fez estudos secundários na cidade da Horta (até ao 5.o ano) e em Lisboa completou o 6.o e 7.o anos no Liceu Pedro Nunes, conhecido pela qualidade do seu ensino e pela existência de metodólogos, que orientavam e avaliavam os então raros estagiários do ensino secundário. Essa vivência em Lisboa, ainda como adolescente, deu-lhe imagens da capital que a sua obra literária não esquece (as casas de hóspedes, os cafés, as dificuldades financeiras, a mediocridade do quotidiano). Licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa em 1969, tendo sido aluno de Vitorino Nemésio, Jacinto Prado Coelho, Lindley Cintra (de quem viria a ser assistente algum tempo), Maria de Lurdes Belchior, David Mourão-Ferreira (cuja «biografia» literária viria a escrever e de quem ficou amigo toda a vida). Nemésio e Pessoa foram suas preocupações críticas, objecto de trabalhos académicos e «modelos» estéticos de forte referência. Além de aluno, José Martins Garcia conviveu cedo com Nemésio em viagens de navio entre Lisboa e os Açores (anos 60), o que proporcionou algumas confidências literárias do autor de Mau Tempo no Canal. Entretanto, tem de cumprir serviço militar na Guiné entre 1966 e 1968. José Martins Garcia foi leitor de Português em Paris (1969-1971), depois assistente de Linguística Geral na Faculdade de Letras de Lisboa (1971-1979), Professor-visitante na Brown University (E.U.A.) e em seguida vem para a Universidade dos Açores (1985), onde se doutorou com uma tese intitulada Fernando Pessoa. «Coração Despedaçado» (Subsídios para um estudo da afectividade na obra poética de Fernando Pessoa), trabalho publicado pela Universidade dos Açores nesse mesmo ano. Era, de resto, um projecto que já trazia adiantado dos Estados Unidos: um trabalho que, segundo David Mourão-Ferreira, o coloca «na primeiríssima fila dos grandes especialistas da obra de Fernando Pessoa» (veja-se «Uma dissertação modelar sobre Fernando Pessoa», in Nos Passos de Pessoa. Ensaios. Lisboa, Presença, 1988: 155). Professor na Universidade dos Açores, José Martins Garcia leccionou primeiramente Linguística, depois direccionou-se para a Literatura (como era seu preferente gosto), vindo a ocupar a cátedra de Teoria da Literatura até se aposentar. O seu lado de docente e de crítico é faceta muito importante da sua personalidade, na qual se cruzam, aliás, o criador, o crítico, o professor. Vitorino Nemésio. A obra e o homem (Lisboa, 1980), em 2.a edição revista e aumentada, Vitorino Nemésio ? à luz do verbo (Lisboa, Vega, 1988) é uma brilhante tentativa de visão global da obra e da personalidade de Nemésio, que só não o faz o primeiro «biógrafo» daquele escritor pelo horror que Martins Garcia teria ? e tinha! ? a uma interpretação biografista simplista, bem longe da sua sagacidade critica e da sua intuição estética. De facto, essa biografia sem biografismo põe a tónica sobretudo na poesia e ainda mais na ficção, não podendo abarcar com igual desenvolvimento outros aspectos de Nemésio cronista e historiador. Mas Temas Nemesianos (SREC, Angra do Heroísmo, 1981) e outros artigos e intervenções sobre Nemésio, em congressos ou conferências, garantem uma ocupação dedicada em relação à obra do «mestre», de quem foi aluno e que «explicou», na sua diversidade e riqueza, em cursos na Universidade. Essa «explicação» fez-se também em função de uma panorâmica mais larga e identitária, que lhe permitiu publicar Para uma Literatura Açoriana (Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1987), obra na qual não só volta a dar atenção a Nemésio como a Roberto Mesquita.

Também dedica ao seu antigo professor e amigo David Mourão Ferreira, A Obra e o Homem (1988). Ainda títulos como Linguagem e Criação (Ensaios) (1973), Cultura, Política e Informação (Ensaios) (1976), Exercícios da Crítica (Lisboa, Salamandra, 1995), (Quase) Teóricos e Malditos (1999) demonstram fecunda actividade intelectual. De resto, o ensino de Literatura não é só campo de aplicação de teorias, mas uma prática viva, que, como professor, queria ver preservada nos alunos mais amadurecidos. Nem à sua habitual mordaz ironia escapava a própria crítica, quando sujeita a exagereros da semiótica, que então entendia ironicamente como semi+óptica (ver só com um olho...). No prefácio a Exercícios da Critica (1995) não receia mesmo invocar o velho enigma de sedução do tal quid inexplicável na arte verbal, embora saiba encarecer a exigência de rigor analítico (e filológico) que nunca lhe faltaram.

Como poeta, destaquem-se Feldegato Cantabile (1973), Invocação a um Poeta e outros poemas (1984). Temporal (publicado nos E.U.A, Providence, Gavea Brown, 1986), que é um amargo testemunho do «exílio» americano nos anos 80 após desentendimentos com alguns docentes da Faculdade de Letras de Lisboa no ambiente pós-revolucionário. No Crescer dos Dias (Lisboa, Salamandra, 1996) será talvez um dos seus melhores livros de poemas, pois a ressonância de Fernando Pessoa liga-se à isotopia da insularidade, que se inscreve num ritmo anafórico de apreensão angustiada do tempo vivido, que é cíclico, em «eterno retorno» dos dias e das estações. Mas não se pode esquecer a importância que a passagem pelos Estados Unidos ? julgada como «desterro» definitivo! ? teve no sujeito de um lirismo de dor e desespero, lembrando o país «maldito» e a vida que nele sonhou. É essa a forte tónica de Temporal (publicado já o autor se encontrava nos Açores):

«só eu sou o sem deus a contas só comigo» («Das imensas crenças»)

...

«sol ventado e brincando nas crianças sobre a relva americana deste meu exílio»

...

«a saudade futura a amnésia ambígua rolam dentro de mim em sílabas perdidas restos reduções porções ruínas sonoras seduções acentos rimas  e outras páginas que já esqueci» («Amnésia defensiva»).

...

«se ao menos eu pudesse chorar! Chorar de riso o que /ainda seria o

mais saudável.

Mas não, estou farto de coisas risíveis, estou farto dos outros /estou

fartíssimo de mim.» («Versos de Pé de Galo»)

O longo poema «Versos de Pé de Galo» (de Temporal) é um bom exemplo, se não um dos melhores, do tedium vitae, do isolamento intelectual e espiritual, do sentimento de decadência nacional, da amargura ácida que pairam em toda a sua obra.

A sua obra ficcional é mais conhecida e abundante. Alguns seus contemporâneos contam que terá ensaiado ficção ainda aluno da Universidade e terá mostrado a amigos. O livro não agradou e, num ataque de fúria, o terá destruído, na lareira da casa onde habitava no Conde Redondo. Martins Garcia era um temperamental a quem a experiência da guerra na Guiné ainda abalou mais os nervos. No serviço da cifra e na fronteira (1966-1968) Martins Garcia ficou muito fortemente marcado pela experiência das privações, pela violência do primum vivere, pelas incertezas do quotidiano da guerrilha. Esse mundo, enraivecido e descabelado, é dado, com a hipertrofia da ficção, em Lugar de Massacre (escrito entre Dezembro de 1973 e Setembro de 1974, i. é, acabado no ambiente de liberdade de escrita pós 25 de Abril). Lugar de Massacre (1.a edição, 1975, reeditado em 1991 pelo Círculo de Leitores e com 3.a edição, Lisboa, Salamandra, 1996) é não só tipologicamente uma obra de literatura ligada à guerra colonial, como um típico documento da ficção hipertrófica e violenta de Martins Garcia. O Pierre Avince de Lugar de Massacre é porta-voz de um violento protesto contra a experiência de guerra, a mobilização «forçada» e caótica, a precaridade de meios. De algum modo, massacre será uma ideia e um sentimento que subjazem em toda a obra de Martins Garcia, como forma de apreensão da vida por um ser humano descontente com ela e nela vendo sempre objecto de forte sarcasmo. Destacam-se ainda, além do romance citado, A Fome (1978), O medo (1981), Imitação da Morte (1982), Contrabando Original (1987), Memória de Terra (1990); constituem contos Katafaraum é uma Nação (1974). Alecrim, Alecrim aos molhos (1974), Revolucionários e Querubins (1977), Receitas para fritar a humanidade (1978), Morrer Devagar (1979), Contos Infernais (1987), Katafaraum Resurrecto (edição do autor, 1992). Como peças de teatro devem-se-lhe Tragédia Exacta (1975) e Domiciano (1987), este premiado pela Secretaria Regional da Educação e Cultura do Governo Regional dos Açores.

Fez também algumas traduções e estudos introdutórios para volumes das Obras Completas de Vitorino Nemésio (Imprensa Nacional/Casa da Moeda), nomeadamente para Varanda de Pilatos, Mau Tempo no Canal, Sob os Signos de Agora e Conhecimento de Poesia.

Na obra de ficção de Martins Garcia nota-se ironia, sarcasmo e amargura. Não só são evidentes algumas notas disfémicas na reconstituição de alguns ambientes de Lisboa, quer dos anos de estudante, quer mesmo do 25 de Abril (veja-se O Medo), como a recordação de uns Açores de infância e adolescência, iluminada depois pelas leituras de história e pela própria reflexão. Ficamos então com uma imagem de ilhas ignotas, caracterizadas por pobreza real e pobreza cultural, por uma religiosidade primária e quase grotesca, por uma aridez do clima e das pessoas. Talvez pensando em especial no Pico da sua infância, lhe ficou esse mundo árido, amargo, injusto, que se esconde porém por detrás de uma paisagem muito bela. A Fome (1978) é uma amarga narração de vivências do estudante das ilhas «perdido» no continente, mas é também um mundo fantástico e simbólico, no qual embrecha uma narrativa histórica do padre António Cordeiro. Há realismo amargo na viagem «paradigmática» dos navios da Insulana (as privações e horrores do enjôo em segunda ou terceira classes de um paquete velho!), o destino incerto do estudante, os anos difíceis da capital no fim do regime salazarista. Mais do que a habitual violência verbal, A Fome aponta para uma fome simbólica (isolamento, emigração, terramotos).

A obra de José Martins Garcia, como se vê na dedicatória de A Fome, é quase toda ela uma «descida aos infernos» (é autor de uma colectânea de Contos Infernais...), um acto de preenchimento de uma solidão profunda: «Procuro-me como um fantasma que regressa ao lar (...). [...]. Procuro-me na fome imorredoura.» (A Fome). A vida em Monte Brabo (Contrabando Original, 1987) é uma pasmaceira, uma rotina; a montanha do Pico uma espécie de presença tutelar, mas também quase um fantasma ? como vê no Conto «Depois do fim do mundo» (em Morrer Devagar).

São evidentes na obra de José Martins Garcia um sentimento de amarga solidão, de ironia e de sarcasmo veiculados numa linguagem contundente ou mesmo disfémica, com uma repulsa pelo falso moralismo, uma tendência caricatural contra os «bons propósitos» da sociedade, ou até mesmo acerca das contradições da Revolução (José Martins Garcia viveu o 25 de Abril). Há cargas satíricas muito perto de personagens à clé. Mas toda essa irreverência e essa «violência» verbal se fazem num uso impecável da Língua Portuguesa, que se afina no seu ensaísmo e nos seus trabalhos de natureza académica. A obra de José Martins Garcia é já objecto de teses académicas em Universidades Portuguesas e estrangeiras (nomeadamente no Brasil e nos E.U.A.). António Machado Pires

Obras principais. (1973), Feldegato Cantabiee. Porto, Paisagem. (1973), Linguagem e Criação (Ensaios). Lisboa, Assírio e Alvim. (1974), Alecrim, Alecrim aos molhos. [Lisboa], Afrodite. (1974), Katafaraum é uma Nação. Lisboa, Assírio e Alvim. (1975), Lugar de Massacre. Lisboa, Edições Afrodite [reeditado em 1991 pelo Círculo de Leitores e com 3.a ed., Lisboa, Salamandra, 1996)]. (1975), Tragédia Exacta. Fundão, Jornal do Fundão. (1976), Cultura, Política e Informação (Ensaios). Lisboa, Perspectivas & Realidades. (1977), Revolucionários e Querubins. Lisboa, Afrodite. (1978), A Fome. S.l., Edições Afrodite. (1978), Receitas para fritar a humanidade. Lisboa, Edições Montanha. (1979), Morrer Devagar. Lisboa, Arcádia. (1980), Vitorino Nemésio. A obra e o homem. Lisboa, Arcádia [2.a ed. revista e aumentada, Vitorino Nemésio - à luz do verbo. Lisboa, Vega, 1988]. (1981), O medo. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura. (1981), Temas Nemesianos. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura. (1982), Imitação da Morte. Lisboa, Moraes. (1984), Invocação a um Poeta e outros poemas. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura. (1985), Fernando Pessoa. «Coração Despedaçado» (Subsídios para um estudo da afectividade na obra poética de Fernando Pessoa). Ponta Delgada, Universidade dos Açores. (1986), Temporal. Providence, Gavea Brown. (1987), Contos Infernais. Ponta Delgada, Brumarte. (1987), Contrabando Original. Lisboa, Vega. (1987), Domiciano. Angra do Heroísmo, Direcção Regional dos Assuntos Culturais [premiado pela Secretaria Regional da Educação e Cultura do Governo Regional dos Açores]. (1987), Para uma Literatura Açoriana. Ponta Delgada, Universidade dos Açores. (1988), David Mourão Ferreira, A Obra e o Homem. 2.a ed., Lisboa, Vega. (1990), Memória de Terra. Lisboa, Vega. (1992), Katafaraum Resurrecto. S.l., ed. do autor. (1995), Exercícios da Crítica. Lisboa Salamandra. (1996), No Crescer dos Dias. Lisboa, Salamandra. (1999), (Quase) Teóricos e Malditos. Lisboa, Salamadra.

 

Bibl. Bettencourt, U. (2003), «José Martins Garcia Signo Atlântico» in Saber ? «Ensaio»: 4-7. Brasil, L. A. A. (1990), «Dos Açores. Um contrabando original» in Letras de Hoje. Porto Alegre: 39-47. Jesus, E. (1986), Verbo Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura. 21, suplemento 2: 606 [s.v. Garcia, José Martins]. Machado, Á. M. (1996), Dicionário de Literatura Portuguesa. Editorial Presença, [s.v. Garcia, José Martins]. Pires, A. M. M. (1995), Dicionário Biblos. Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, II [s.v. Garcia, José Martins]. Vilhena, M. C. (1990), «Contrabando original: o outro lado das coisas» in Arquipélago ? Línguas e Literaturas, XI: 225-243. AA.VV. (2204), Revista Arquipélago, Línguas e Literaturas, XVIII [o volume é dedicado em homenagem a José Martins Garcia].