Governo dos Açores - Secretaria Regional da Educação, Ciência e Cultura - Direção Regional da Cultura

Almeida, Francisco Manuel Raposo de

[N. Rabo de Peixe, Ribeira Grande, ilha de S. Miguel, 1817 - m. Pindamonhangaba, Brasil, 1886] Escritor romântico. De origem modesta, mas dado, desde muito novo, ao cultivo das letras, é possível que tenha conhecido Garrett em casa do cônsul britânico William Harding Read quando o futuro autor do Frei Luís de Sousa esteve de passagem por S. Miguel em 1832. De qualquer modo, foi seu protegido em Lisboa e com essa protecção pôde frequentar o Real Colégio dos Nobres e concluir aí as Humanidades. Tentou, depois, estudos superiores em Coimbra, mas ao certo sabe-se apenas que esteve matriculado na Faculdade de Filosofia e Matemática no ano lectivo de 1840-41. A seguir a esta data, ainda voltou por algum tempo a Ponta Delgada, onde escreveu parte do drama Camões e fez representar outro intitulado O Monge da Serra d?Ossa. Depois aparece cumprindo pena de exílio na Madeira por envolvimento numa das muitas sedições contra o regime de Costa Cabral (1844), continuando aí, no Machico, a redacção do drama Camões. Por fim, logo após a insurreição popular da Maria da Fonte, que pôs termo à política cabralista, emigrou para o Brasil (1846). Neste país foi inicialmente advogado no Rio de Janeiro (1846-48), depois industrial de tipografia em Santos (1848-53) e, por fim, professor o resto da vida, sucessivamente em Pindamonhangaba (1853-57), no Rio de Janeiro (1857-58), na cidade do Desterro, hoje Florianópolis (1858-62), na cidade do Salvador (1862-65), no Recife (1865-70), em Goiana (1870-73) e, de novo, em Pindamonhangaba até ao fim dos seus dias. Por todo esse tempo dedicou-se também ao teatro, tendo sido membro do Conservatório Dramático do Rio de Janeiro (1847), e ao jornalismo, fundando e dirigindo vários jornais. Além disso, pertenceu a algumas instituições culturais brasileiras a que deu importante colaboração, sobretudo no âmbito da História do Brasil (v. principalmente as suas dissertações nas revistas do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, que ele mesmo fundou em Goiana). Também se empenhou na política da sua pátria adoptiva, chegando a ser deputado à Assembleia Provincial Catarinense.

Como literato, cultivou o teatro, a poesia, o romance, o artigo literário e político, a dissertação académica, o ensaio histórico e biográfico e as memórias. Do seu teatro, temos notícia de ter sido representada apenas uma das suas peças, O Monge de Serra d? Ossa, primeiro em Ponta Delgada, talvez em 1843, como já ficou dito acima, e mais tarde no Brasil, cidade de S. José, em 1856. O drama O Conjurado ou Os Conspiradores foi presente ao Conservatório Nacional de Lisboa e aprovado para representação, mas não chegou a subir à cena. Esta peça ficou inédita, assim como os dramas D. Afonso VI ou O Destronado, Inês de Castro e A Favorita, de que desconhecemos o paradeiro. Quanto à sua obra impressa, destacamos: Teatro: Leitura Académica do Camões, Rio de Janeiro, 1847; Martim de Freitas, ibid., 1847; O Camões, Santos, 1851. O Monge da Serra d?Ossa, ibid., 1851; Romance: O Monge da Caloura, publicado em folhetim, primeiro n?O Mosaico, Lisboa, 1840, e depois na Nova Gazeta dos Tribunais, Rio de Janeiro, 1848. Biografia: Biografia do Marquês de Santa Cruz, Baía, 1863; Biografia de D. Manuel do Monte Rodrigues de Araújo, Bispo do Rio de Janeiro, Conde de Irajá, Baía, 1864; Biografia do Cónego Francisco José Tavares da Gama, Goiana, 1871; e «Notícia biográfica de José Soares de Azevedo», in Poesias Selectas de [...], Recife, 1879. Memórias: Folhas de um Álbum, Santos, 1851. História: além de um Discurso Inaugural da Cadeira de História do Seminário Arquiepiscopal da Baía, Salvador, 1863, e de uns Elementos de História Universal, Recife?, 1867, deixou dispersos muitos outros trabalhos históricos, de que se salientam um Discurso de Introdução à História da Igreja Pernambucana, na Revista do Instituto Arqueológico, histórico e Geográfico Pernambucano, 1867, uma História Eclesiástica do Brasil (referida, sem outras indicações, por Franklin Távora, pouco depois da morte do autor, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1886), um Catálogo dos Bispos de Pernambuco, várias memórias (sobre os jesuítas em Pernambuco, o recolhimento da Glória, o forte de S. Jorge, etc.), e um trabalho muito estimado pelos historiógrafos brasileiros intitulado Breve Memória sobre o Método mais Fácil de Investigar, Coleccionar e Organizar os Materiais de História, na Revista do Instituto Pernambucano, 1868. Ainda escreveu e publicou obras didácticas. Quanto à poesia lírica, deixou-a dispersa. Eduíno de Jesus (Out.1997)