Um vulcão é uma estrutura geológica através da qual lava e gases são emitidos para a superfície da Terra. O termo designa também a forma topográfica resultante da actividade eruptiva, um edifício formado pela acumulação, em torno das condutas, do material piroclástico ejectado e das extrusões lávicas.
De acordo com a mitologia romana o deus do fogo, Vulcano, tinha residência na ilha do mesmo nome, no arquipélago das Eólicas, em Itália. Tal ligação mitológica deve-se certamente à intensa e ruidosa actividade explosiva que terá ocorrido durante a antiguidade grega e romana na ilha de Vulcano, cujos ruídos e fumos só podiam provir da actividade do deus na sua oficina, onde forjava as armas para o deus da guerra, Marte. Ao nome da ilha se deve a designação dos aparelhos eruptivos na maior parte das línguas europeias e na arábica (Scarth, 1994).
É comum pensar-se num vulcão como uma montanha de forma cónica. Contudo, nem sempre os edifícios vulcânicos apresentam aquela forma. Frequentemente a morfologia é irregular ou corresponde a uma depressão e as formas possíveis são muito variadas.
Um dos tipos de vulcões, menos conhecido, corresponde às grandes extensões de derrames lávicos que constituem os fundos oceânicos, ou as regiões de morfologia plana, formadas por empilhamentos de dezenas ou centenas de escoadas lávicas basálticas, existentes em algumas áreas continentais. Outras estruturas constituem relevos de baixo declive, resultantes da acumulação de derrames lávicos muito fluidos, de que são exemplo os vulcões havaianos. Finalmente, os vulcões fortemente explosivos originam formas cónicas íngremes, a imagem clássica de um vulcão, de que são exemplo o Fujiama no Japão, o Pinatubo e o Mayon nas Filipinas, ou o Santa Helena nos Estados Unidos. Estes são alguns exemplos de grandes vulcões poligenéticos, ou seja formados pela acumulação de produtos vulcânicos resultantes de numerosas erupções no mesmo local. Existem, contudo, muitos edifícios vulcânicos de pequena dimensão, formados por uma só erupção, cuja morfologia pode ser muito variada, apresentando-se como cones perfeitos, sob a forma de fissuras, com formas irregulares ou constituindo depressões.
Tal como a forma, as dimensões de um edifício vulcânico podem variar enormemente. O diâmetro da base de um vulcão pode ter desde apenas algumas dezenas de metros, nos pequenos aparelhos monogenéticos, até centenas de quilómetros para os grandes vulcões. O mesmo se passa no que respeita a altura, encontrando-se pequenos cones com apenas alguns metros de altura, até aos grandes edifícios com vários quilómetros (> 8 km para o edifício da ilha grande do Hawai). Consequentemente, o volume de materiais eruptivos que constitui um edifício vulcânico pode variar enormemente. Por exemplo, um cone de escórias médio, com 300 m de diâmetro e 60 m de altura, será formado por um volume de materiais vulcânicos da ordem 2 x 106 m3 (ou 0,002 km3), enquanto um grande vulcão escudo, como o Mauna Loa (Hawai), corresponde a um volume de cerca de 40.000 km3 (4 x 1013 m3).
Em geral, estes aparelhos apresentam depressões no topo, as quais correspondem a crateras ou a caldeiras. Alguns sofreram colapso de flancos, marcados por concavidades topográficas mais ou menos colmatadas por actividade vulcânica posterior. As vertentes dos grandes edifícios encontram-se sempre semeadas por um número mais ou menos abundante de edifícios adventícios.
Os vulcões activos ocorrem em três situações geotectónicas distintas. A grande maioria (95%) localiza-se em ambiente interplaca, isto é associados a fronteiras de placa litosféricas. Estes limites de placas podem ser divergentes ou construtivos, as dorsais oceânicas, ou convergentes ou destrutivos, nas zonas de subducção. Os restantes vulcões (5%) encontram-se em ambiente intraplaca, ou seja no interior das placas litosféricas, oceânicas ou continentais, constituindo hot spots onde o vulcanismo se encontra relacionado com a existência de plumas no manto terrestre.
Quando se contabiliza o volume de produtos vulcânicos emitido em cada um daqueles ambientes, verifica-se que o maior volume é produzido na região axial das dorsais oceânicas que é responsável por cerca de 62% do total do volume de lava extruída no globo. Este vulcanismo, que se encontra oculto por decorrer maioritariamente a grande profundidade, formou toda a litosfera oceânica que conhecemos actualmente em pouco mais de 150 Ma. O restante volume é emitido por vulcões relacionados com zonas de subducção (26%) e com hot spots (12%).
O arquipélago dos Açores foi produzido por actividade vulcânica, provavelmente durante os últimos 10 Ma (milhões de anos). A acumulação progressiva de produtos eruptivos foi edificando relevos submarinos que, ao emergir, constituíram as ilhas. Alguns destes edifícios ainda não emergiram ou fizeram-no apenas episodicamente. Esse é o caso do vulcão do Banco D. João de Castro que formou uma ilha temporária na sequência da erupção de 1720 e cujo topo se encontra presentemente a cerca de 10 m de profundidade. Outros relevos submarinos poderão ter estado emersos em épocas passadas, encontrando-se actualmente submersos.
Todas as ilhas dos Açores são, consequentemente, vulcânicas, mesmo se em algumas a actividade eruptiva tenha terminado há muito. Encontra-se nessa situação a ilha de Santa Maria onde afloram as rochas mais antigas dos Açores, com cerca de 8 Ma (Abdel Monem et al., 1968, 1975). Foi também em Santa Maria que o vulcanismo cessou há mais tempo. Estima-se que a derradeira actividade vulcânica na ilha tenha ocorrido há cerca de 2 Ma (Féraud et al., 1980, 1984; Madeira, 1986; Serralheiro & Madeira, 1993). Consequentemente, a maioria dos vulcões de Santa Maria não são reconhecidos como tal uma vez que as suas formas se encontram destruídas ou degradadas pela erosão. Pelo contrário, em todas as restantes ilhas a génese vulcânica é evidente, mesmo quando não existem vulcões com actividade histórica. Em S. Miguel existem quatro vulcões poligenéticos: o vulcão da Povoação/Nordeste, a estrutura mais antiga, provavelmente extinta; os vulcões das Furnas, do Fogo ou de Água de Pau; e das Sete Cidades. A ligar o vulcão das Sete Cidades ao do Fogo, existe uma zona de vulcanismo fissural representado por várias dezenas de edifícios monogenéticos. Existem, portanto, cinco sistemas vulcânicos, quatro dos quais activos. Na Terceira contam-se quatro vulcões poligenéticos (Serra do Cume, Guilherme Moniz, Pico Alto e Santa Bárbara) e um sistema fissural basáltico. Destes, os vulcões da Serra do Cume e de Guilherme Moniz encontram-se, provavelmente, extintos. A ilha Graciosa é formada por dois vulcões centrais, um mais antigo na região central, outro muito recente a sul com caldeira no cume, e um campo de cones basálticos monogenéticos a norte. O vulcão da Caldeira e o sistema basáltico são activos, muito embora não tenham ocorrido (ainda) quaisquer erupções históricas naquelas estruturas. S. Jorge é diferente de todas as restantes pois não existe qualquer vulcão poligenético, mas um sistema basáltico fissural, activo, que se estende de uma ponta à outra da ilha. A ilha do Pico apresenta dois edifícios poligenéticos, um extinto (o relevo do Topo), e outro activo, o vulcão da montanha do Pico. Para oriente deste grande vulcão estende-se uma zona fissural basáltica activa. Na ilha do Faial reconhecem-se dois edifícios do tipo central, o vulcão da Ribeirinha, já extinto, e o vulcão da Caldeira, activo, bem como duas zonas de vulcanismo fissural basáltico, a do Capelo, activa, e a da Horta, possivelmente num estado de dormência. O Corvo é formado por um só vulcão central, com caldeira no topo. A ilha das Flores é um grande vulcão central, alongado no sentido norte-sul. O número de vulcões monogenéticos na área emersa das nove ilhas é incontável; a esses acrescem os que se situam abaixo do nível do mar e aqueles que já foram cobertos pelos produtos vulcânicos posteriores. José Madeira
Bibl. Abdel-Monem, A.; Fernandez, L. A. & Boone, G. M. (1968), Pliocene-Pleistocene minimum K/Ar ages of the older eruptive centres, Eastern Azores. Transactions of the American Geophysical Union, 49: 363. Abdel-Monem, A.; Fernandez, L. A. & Boone, G. M. (1975), K-Ar ages from the eastern Azores Group (Santa Maria, S. Miguel and the Formigas islands). Lithos, 8: 247-254. Féraud, G.; Kaneoka, I. & Allegre, C. J. (1980), K-Ar ages and stress pattern in the Azores: geodynamic implications. Earth and Planetary Science Letters, 46: 275-286. Féraud, G.; Schmincke, H.-U.; Lietz, J.; Gostaud, J.; Pritchard, G. & Bleil, U. (1984), New K/Ar ages, chemical analyses and magnetic data of rocks from the islands of Santa Maria (Azores), Porto Santo and Madeira (Madeira archipelago) and Gran Canaria (Canary islands). Arquipélago (série Ciências da Natureza), 5: 213-240. Madeira, J. (1986), Geologia estrutural e enquadramento geotectónico da ilha de Santa Maria (Açores). Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa [Tese apresentada às Provas de Capacidade Científica para passagem a Assistente]. Scarth, A. (1994), Volcanoes. London, University College of London Press. Serralheiro, A. & Madeira, J. (1993), Stratigraphy and geochronology of the island of Santa Maria (Azores). Açoreana, 7(4): 575-592.