Uma das famílias mais antigas dos Açores que usou, principalmente e até à actualidade, o nome de Soares d?Albergaria, conjugado com diversos outros apelidos. Dela existe numerosíssima descendência. Já foi dito que, do ponto de vista genealógico, a família Soares d?Albergaria seria, talvez, a mais ilustre das ilhas de S. Miguel e de Santa Maria: pertence ao número daquelas cuja linhagem se liga plausivelmente à nobreza do Reino, anterior ao descobrimento das ilhas, com origem que remonta, pelo menos, à fundação da Nacionalidade, podendo dizer-se que, sendo o seu tronco (D. Payo Delgado) já nobre, e não se conhecendo momento em que tivesse a família sido nobilitada, tem o que na Europa se costuma chamar nobreza imemorial (alguns pretendem fazer remontar a sua origem aos Godos, tese que, aliás não parece fundada. Manuel Soares d?Albergaria Paes de Melo, por exemplo, não a aceita (Melo, 1952). É a que recebe a sucessão da capitania das ilhas de S. Miguel e Santa Maria, imediata e directamente do primeiro capitão-do-donatário, Frei Gonçalo Velho Cabral, na pessoa de seu sobrinho João Soares d?Albergaria (primeiro do nome). Os capitães dos donatários foram, como geralmente se aceita, entre os povoadores açorianos, os únicos que tiveram estatuto próximo do de senhores feudais, atendendo aos poderes, ? designadamente, mas não só, no que respeita à administração da justiça e à «dada de terras», ? que lhes eram atribuídos pelos respectivos regimentos, cartas de nomeação e, em geral, pelo regime jurídico a que estavam sujeitos (Santos, s.d., II: 492 e segs.). Talvez nenhuma outra família açoriana tenha acumulado desde a época do descobrimento tão destacadas alianças familiares com a mais alta nobreza do Reino; não despicienda, por fim, é a circunstância de, mesmo depois desse período inicial de alianças históricas, ter mantido sem interrupção, em quase todos os ramos, casamentos com as mais ilustres famílias açorianas, nunca deixando de exercer funções de relevo, tendo-se, ao longo dos séculos, sempre conservado ao mais elevado nível da principalidade.
A representação da chefia da família seguiu por vias femininas e encontra-se nos descendentes do primeiro Visconde de Botelho, Nuno Gonçalo Soares d?Albergaria Botelho de Gusmão. Mas deve notar-se que se mantiveram até ao presente diversas linhas varonis legítimas, originadas em João Soares d?Albergaria (primeiro do nome), sendo hoje a mais velha ? genealogicamente, a mais próxima do tronco da família ? a dos descendentes do coronel Virgílio Soares d?Albergaria, por seu filho, Eduardo Soares d?Albergaria, seu neto Jacinto Soares d?Albergaria e seu bisneto João Luís Soares d?Albergaria (veja-se sobre esta matéria a completíssima notícia elaborada para publicação na 3.ª edição do Anuário da Nobreza, pelo Dr. Jorge de Melo Manuel Frazão). Embora encontremos no arquipélago outros ramos cujo entroncamento tem sido objecto de pesquisa, de longe o mais importante é o que foi originado no referido João Soares d?Albergaria, (também dito Soares Velho), segundo capitão-do-donatário das ilhas de Santa Maria e S. Miguel, filho de D. Teresa Velho Cabral, irmã do cavaleiro, navegador, descobridor (ou, mais provavelmente, redescobridor), dos Açores e primeiro capitão-do-donatário, (o Infante D. Henrique, de cuja Casa era fidalgo), das ditas ilhas de Santa Maria e S. Miguel e seu provedor, Frei Gonçalo Velho Cabral, Comendador, na Ordem de Cristo, da Bezelga, de Almourol, etc. (Sá, 1899, e bibl. cit.), que, antes das navegações açoreanas, já tinha participado com distinção na tomada de Ceuta, no assalto a Gibraltar e (1426) em viagem ao longo da costa africana «a Sul das Canárias» (Azurara, s.d; Peres, s.d.: 76.) Ele e sua irmã acima referida foram filhos de Fernão Velho, que descendia do tronco dos Velhos, e de D. Maria Álvares Cabral, que descendia dos Cabrais, senhores de Belmonte.
Frei Gonçalo Velho teria pedido ao Infante D. Henrique licença para repartir entre dois sobrinhos (Pedro Velho e Nuno Velho) que com ele viviam em Santa Maria, as capitanias dessa ilha e da de S. Miguel. Mas, segundo Gaspar Frutuoso, o Infante não concordou, decidindo manter as duas capitanias reunidas na titularidade de «outro seu sobrinho, do mesmo Gonçalo Velho, que andava em casa do dito Infante, chamado João Soares d?Albergaria» (Frutuoso, 1977, Liv. IV,I: 30).
Este terá assim pertencido às Casas do Infante D. Henrique e de seus sobrinhos os Infantes D. Fernando e D. Diogo, todos Duques de Viseu. Mesmo que a «escolha» entre os sobrinhos tivesse sido feita pelo Infante D. Henrique, M. M. Velho Arruda, (1923: XCVIII), nota que as cartas de concessão das capitanias, de S. Miguel e Santa Maria já foram emitidas em nome do sucessor de D. Henrique, seu sobrinho e filho adoptivo, o Infante D. Fernando. João Soares d?Albergaria vendeu a capitania de S. Miguel a Rui Gonçalves da Câmara, que foi, portanto, terceiro capitão-do-donatário dessa ilha, (tronco dos Condes de Vila Franca e da Ribeira Grande e de diversos ramos menores dos Câmaras da mesma ilha, filho de João Gonçalves Zarco). Na Madeira é dito ter dado grande apoio a João Soares quando a sua primeira mulher, D. Beatriz Godiz, se encontrava na fase final da vida, (ali tendo morrido). A venda a Rui Gonçalves da Câmara (ainda em vida da mulher) terá sido feita por mil cruzados e quatro mil arrobas de açúcar, valor manifestamente insignificante perante o objecto do negócio. Para esta circunstância aventam-se duas explicações. Alguns autores referem a gratidão que o vendedor pretenderia mostrar ao comprador pela forma como o tratara na Madeira. Outros, talvez mais próximos da realidade, põem a hipótese de João Soares d?Albergaria ter sido «aconselhado» pelo donatário a ceder os direitos sobre a ilha de S. Miguel, por se passarem os anos e o seu povoamento e desenvolvimento se continuarem a processar de forma insatisfatória (tese para a qual se inclina Manuel Monteiro Velho Arruda, 1923: CII- CIII. Francisco de Athayde Machado de Faria e Maia, «Capitães dos Donatários», 4.ª ed., 1988, Cap. I, chama, também, a atenção para a necessidade que se fazia sentir de organizar em S. Miguel uma Administração Pública que enquadrasse eficazmente a população). Na carta de confirmação da venda a Rui Gonçalves da Câmara, diz a Infanta D. Beatriz, referindo-se a S. Miguel, que «a dita ilha das [sic] o começo da sua povoação até ao presente he muy mall aproveitada e pouco povoada». (M. M. Velho Arruda ob. Cit. Pp. CXLVV e ss.) Era então donatário das ilhas o Infante D. Diogo, duque de Viseu, (que sucedera, menor a seu irmão D. Fernando). A venda da capitania de S. Miguel é confirmada por carta de 10 de Março de 1474, (vd. Manuel M. V. Arruda, ob. cit., p. 166), sendo João Soares d?Albergaria confirmado apenas na da ilha de Santa Maria por carta de 12 de Maio de 1474, (M. M. V. Arruda, loc. cit.: 177), ambas da Infanta D. Beatriz, tutora de seu filho, o dito D. Diogo. Casou João Soares d?Albergaria segunda vez em Lisboa, a 20 de Junho de 1492, com D. Branca de Sousa Falcão, filha de João de Sousa Falcão, fidalgo cavaleiro da Casa Real, e de sua mulher D. Mécia de Almada de Castro (esta com a varonia dos Almadas e sobrinha do Conde de Avranches, morto em Alfarrobeira), neta de João Falcão, fidalgo cavaleiro da Casa Real, alcaide-mor de Mourão, Senhor de Monforte, Póvoa, Meadas e Castelo de Vide e de sua mulher D. Branca de Sousa, esta filha, por sua vez, de D. Lopo Dias de Sousa, oitavo Mestre da Ordem de Cristo, mordomo-mor de D. João I, 17.º Senhor da Casa de Sousa (Sousas de Arronches).
Foi durante o governo de João Soares d?Albergaria que Cristóvão Colombo terá parado em Santa Maria na sua viagem de regresso. Tendo-se o capitão deslocado a Lisboa para casar com D. Branca de Sousa, e estando em funções o seu lugar-tenente João da Castanheira, Colombo aportou ao norte da ilha em 18 de Fevereiro de 1493. Uma parte da tripulação desembarcou para cumprir o voto de ouvir missa na primeira igreja consagrada a Nossa Senhora que encontrassem. Presa, porém, pelos locais, foi solta após negociações. Colombo, cautelosamente, não teria ele próprio desembarcado? (Vd. M. M. V. Arruda ob. Cit.: CXL, e Bibliografia aí citada.) É ponto até hoje pouco claro. O certo é que o episódio não prejudicou João da Castanheira, que veio depois a ter boa «dada» de terras na ilha de S. Miguel. João Soares d?Albergaria deixou fama de grande valentia. O Padre Cordeiro, (História Insulana, 2.ª ed., 1866, I: 153-154), relata alguns dos seus feitos de guerra, designadamente a ocasião em que «com um só negro seu e quatro homens brancos, pelejou três dias com hum navio de castelhanos até que desfalecidos os cinco Portugueses de pelejar, foram prezos, e levados a Castella, e o valente Capitão se resgatou e voltou à sua ilha [...]». Morreu em 1499 com mais de 80 anos.
A ligação de João Soares d?Albergaria aos Soares d?Albergaria do continente faz-se por seu pai, marido de D. Teresa Velho. A matéria tem sido estudada. Felgueiras Gayo, ao indicar os filhos de Estêvão Soares d?Albergaria, dito «o moço», oitavo Senhor da Albergaria de Lisboa, e de sua mulher D. Maria Lourenço de Soalhaens, refere Afonso (ou Álvaro) Soares d?Albergaria, e acrescenta que o P. António Soares d?Albergaria «tem para si foi progenitor dos Soares da ilha de Santa Maria». Manuel Soares d?Albergaria Paes de Melo, no seu monumental estudo sobre «Soares de Albergaria», cit., escreve também que foi através deste Álvaro (ou Afonso) «que a família Soares d?Albergaria passou aos Açores, mais propriamente a Santa Maria». Um filho deste Álvaro ou Afonso terá sido o marido de D. Teresa Velho.
Acerca do seu primeiro nome são apresentadas várias hipóteses pelos autores açorianos. Gaspar Frutuoso (1977, Liv. IV, vol. I: 26) chama-o F. Soares d?Albergaria e, por vezes, «Fuão», o que leva diversos genealogistas, e designadamente Rodrigo Rodrigues, a considerar tratar-se de mera abreviatura de Fernão. O Pe. Cordeiro (op. cit., Livro IV, Cap. VI: 136) refere-o como «N. Soares», chamando-lhe «fidalgo», ou «N. Soares d?Albergaria»(p. 139), e menciona-o também a p. 147, ao dizer que João Soares d?Albergaria era filho de D. Tareja Velho Cabral e do «fidalgo da casa dos Soares d?Albergaria». Ainda a p. 154 (Cap. VII), n.º 40, escreve: «João Soares d?Albergaria de cuja fidalguia já falámos [...]». Note-se ainda que o terceiro Visconde do Botelho (1957:71) leu «Fuão» como «João».
Felgueiras Gayo, por seu lado, parece estabelecer uma ligação plausível, ao tronco dos Soares d?Albergaria (que nenhum autor põe, aliás, em causa) ao escrever (op. cit, Título de Soares d?Albergaria, vol. IX, p. 479; §3º Donatários da ilha de S. Maria), que «José Soares de Albergaria filho de Álvaro Soares, Nº 7, foi 2º capitão donatário da ilha de S. Maria. Casou na dita ilha com D, Teresa Velho Cabral, irmã de Fr. Gonçalo Velho Cabral Comendador de Almourol, e o 1º donatário da ilha [...]». Mais adiante escreve que seu filho João Soares d?Albergaria houve «de seu tio Frei Gonçalo Cabral [sic] as capitanias acima referidas».
A este texto de Felgueiras Gayo cabe fazer duas observações. Por um lado, há confusão em se considerar «Jozé» como 2º capitão-do-donatário, cargo que foi exercido por seu filho, como é pacificamente aceite e está amplamente comentado. Por outro lado, o nome de José, dado ao marido de D. Teresa Velho Cabral, não coincide com o de «Fuão ou Fernão» dos genealogistas açorianos. Mas este ponto não parece complexo. Os açorianos, tudo o indica, nunca tiveram bem certezas sobre o nome do marido de D. Teresa, (o que não é para estranhar, dada a época em que viveu e a circunstância de muito provavelmente ter permanecido pouco nos Açores) e, como é notório, pronunciam-se cautelosamente sobre a matéria. Com base na autoridade de Felgueiras Gayo e tomando em conta todo o contexto em que se põe o problema (e designadamente a unânime opinião dos açorianos de que o marido de D. Teresa vinha dos Soares d?Albergaria), afigura-se legítimo dizer que D. Teresa Velho Cabral foi casada com Fernão ou José Soares d?Albergaria de quem, portanto, teve João Soares d?Albergaria, segundo capitão, o qual, a admitir-se esta ligação, seria, assim, sétimo neto de D. Payo Delgado, que terá acompanhado D. Afonso Henriques na tomada de Lisboa, e aí fundado a «Albergaria» de que a família tomou o nome.
A João Soares d?Albergaria sucedeu na capitania seu filho João Soares de Sousa, falecido a 2 de Janeiro de 1571 em Santa Maria. Fidalgo cavaleiro da Casa Real. Terceiro capitão-do-donatário da mesma ilha (carta de confirmação de 13 de Março de 1527), fidalgo de cota de armas (CBA de 18 de Junho de 1527), I e IV Sousa Arronches, II e II Velhos; timbre de Velhos; diferença pessoal de uma flor-de-lis de ouro). Casou duas vezes, a primeira com D. Guiomar da Cunha, filha e herdeira de Francisco da Cunha e Albuquerque, fidalgo cavaleiro da Casa Real, capitão da armada da Índia, que recebeu diversos privilégios por cartas de 5 e 10 de Março de 1498, (este filho de Pedro de Albuquerque e de D. Guiomar da Cunha e irmão de Gonçalo de Albuquerque casou com D. Leonor de Menezes, pais de Afonso de Albuquerque, conquistador de Goa). Francisco da Cunha e Albuquerque foi casado com D. Beatriz da Câmara, filha legitimada de Rui Gonçalves da Câmara, terceiro capitão-do-donatário da ilha de S. Miguel (é pelo casamento de João Soares de Sousa com D. Guiomar da Cunha que os Soares d?Albergaria de S. Miguel e Santa Maria descendem, sem qualquer dúvida, do tronco dos Albuquerques, sendo, designadamente, próximos parentes do grande Afonso de Albuquerque, o que Braancamp Freire contestou, mas sem o menor fundamento).
Na descendência do filho primogénito de João Soares de Sousa, Pedro Soares de Sousa, continuou na família a capitania de Santa Maria, até que esta linha se extinguiu com a morte de Brás Soares de Sousa, sétimo capitão-do-donatário (terceiro neto de João). A descendência do terceiro capitão, desenvolveu-se, porém, até à actualidade através de um seu outro filho, Nuno da Cunha de Sousa e Albuquerque, cuja descendência, extinto o ramo primogénito, herdou a chefia da família e os seus importantes vínculos, embora não lhe tivesse sido renovada a capitania.
Na descendência de Nuno da Cunha de Sousa e Albuquerque encontramos numerosas figuras de relevo para a história açoriana. Apenas a título de exemplo, refiram-se: o primeiro Visconde do Botelho (acima referido) que, por via feminina, herdou a chefia da família; na linha varonil, o capitão e morgado António Soares de Sousa Ferreira Borges e Medeiros, que teve carta de brasão de armas em 5 de Agosto de 1736; seu neto Bento Soares d?Albergaria, sargento-mor, capitão-mor, governador e comandante militar de Santa Maria, Cavaleiro das Ordens de Cristo e de Vila Viçosa, etc., etc. (V. Manoel, n. publ.); a irmã deste último, D. Maria Soares d?Albergaria, avó paterna do primeiro Conde de Albuquerque; já neste século, o notável poeta Jacinto Soares d?Albergaria, falecido sem geração. Augusto de Athayde
Bibl. Albergaria, A. A. S. (1997), Livro de Família. Lisboa, Ed. do autor, I. Arruda, M. M. V. (1923), Colecção de Documentos relativos ao descobrimento e povoamento dos Açores. Ponta Delgada, Oficinas de Artes Gráficas. Azurara, Gomes Eanes de (s.d.), Crónica da Tomada de Ceuta. Botelho, Visconde de (1957), Os Botelhos de Nossa Senhora da Vida, Lisboa, Ed. do autor. Frutuoso, G. (1977), Saudades da Terra, Liv. IV. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, I: 30. Manoel, J. F. M. (n. publ.), Soares de Albergaria (nota para publicação na 3.ª ed. do Anuário da Nobreza de Portugal). Melo, M. S. A. P. (1952), Soares d?Albergaria, Lisboa, ed. do autor. Peres, D. (s.d.), História dos Descobrimentos Portugueses, 1.ª ed., Porto, Vertente. Rodrigues, R. (em publ.), Genealogias das ilhas de S. Miguel e Santa Maria, Ponta Delgada, Sociedade de Estudos Afonso de Chaves, ed. Oliveira Rodrigues e Hugo Moreira. Sá, A. (1899), Frei Gonçalo Velho, Lisboa, s.e.. Santos, J. M. (s.d.), Os Açores nos séculos XV e XVI. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura, II.